Em minha hora final
Minha visão, turva, ilude-me, enquanto carrego minhas dores para a morada distante e final. Atravesso desertos, serras e oceanos e nada carrego comigo, senão as imagens dolorosas de uma pueril existência.
Mas enquanto viajo por paisagens desterradas, negras moradas, um pranto convulviso apodera-se de mim e abala meu ser. Sou tomado por furiosa cólera e grito aos deuses que me libertem dos grilhões carnais. Desejo não ser, não existir...
Tenho o coração apertado, sufocado pelas angústias colossais, e sei que em breve encontrarei meu sudário, meu sepulcro rochoso entre qualquer dos paredões de um penhasco borrascoso.
Nesta hora derradeira, escrevo minhas palavras finais:
Não sinto a luz, nem o gosto do mel.Ouço uma música suave e fico em transeTenho a vista cansada, cansada de verSinto os ossos quebrados, uma vida de felMinha cova, em breve, já não estará vaziaÉ um Supremo reconforto abandonar a TerraEsta vida efêmera que lentamente me sufocaE de mim nada restará, senão melancoliaEsse foi um caminhar de martírioUma negra marcha rumo à ruína finalE de repente, sinto em meu peito faca afiadaE me entrego sorrindo a um doce delírioNo entanto, nada do que me foi ensinadoNem os salmos, nem o bem e o mal, ou a filosofiaNem os cantos, nem os prantos e encantosNenhum desses princípios me será retirado