quinta-feira, maio 29, 2014

ANOITECER - Carlos Drummond de Andrade


ANOITECER
A Dolores
É a hora em que o sino toca,
mas aqui não há sinos;
há somente buzinas,
sirenes roucas, apitos
aflitos, pungentes, trágicos,
uivando escuro segredo;
desta hora tenho medo.

É a hora em que o pássaro volta,
mas de há muito não há pássaros;
só multidões compactas
escorrendo exaustas
como espesso óleo
que impregna o lajedo;
desta hora tenho medo.

É a hora do descanso,
mas o descanso vem tarde,
o corpo não pede sono,
depois de tanto rodar;
pede paz — morte — mergulho
no poço mais ermo e quedo;
desta hora tenho medo.

Hora de delicadeza,
gasalho, sombra, silêncio.
Haverá disso no mundo?
É antes a hora dos corvos,
bicando em mim, meu passado,
meu futuro, meu degredo;
desta hora, sim, tenho medo.

© CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
In A Rosa do Povo, 1945

terça-feira, maio 07, 2013

A MORTE NÃO É O FIM

pintura do Defensor


Morri como mineral e tornei-me planta.
Morri como planta e renasci animal.
Morri como animal e tornei-me Homem.
Por que devo temer? Quando fui eu diminuído por morrer?
Ainda outra vez morrerei, como Homem, para me elevar
com os anjos abençoados; mas até da angelitude
terei de sair. Tudo, excepto Deus, perece.
Quando tiver sacrificado a minha alma angélica,
Tornar-me-ei aquilo que nenhuma mente jamais concebeu.
Oh, deixem-me não existir! Porque a Não-Existência
proclama, em sons melodiosos,
que a Ele regressaremos.

RUMI

terça-feira, setembro 13, 2011

sábado, março 19, 2011


O PEREGRINO


Diga-me, peregrino
Que procurastes nos templos romanos?
Quais rituais, seitas tomastes parte?
Oferecestes homenagem aos ídolos pagãos?
Ou apenas perambulastes,
Sem destino, pelos antros escuros,
Círculos esquecidos em busca dos arcanos inferiores
Segredos ocultos em liturgias da antiga Babilônia?

Diga-me peregrino,
Quanta magia e qual encantamento
É capaz de descerrar o véu
E revelar as cicatrizes das almas?
Quais estigmas escondem os espíritos?
È possível controlar a mão, a espada?
Transformar o chumbo em ouro?
Ou isto é apenas uma lenda
Encerrada no coração dos tolos?

Diga-me peregrino,
Devo eu temer tuas forjas? teu aço?
Reluzente e frio aço...
Quem sabe, então, uma lança,
Penetrando o coração
Uma lâmina ou punhal
O precioso sangue se esvaindo...

Devo me curvar
Ante o teu sussurro?
Teu diabólico chamamento?
Ou devo apenas temer tuas crenças,
Teus altares, rezas e vontades?
Devo ser amaldiçoado
A te servir?
A contemplar eternamente
A escuridão do teu olhar?

Peregrino
Você está cego?
Teu cajado não te protege
Teus sortilégios não se cumpriram
Tua jornada foi em vão

Pensa ser um escolhido
Mas não passa de uma sombra
À espera de qualquer mal
Não adianta fingir
Teus olhos de fogo te denunciam
Nas sombras da morte
Nas chamas da noite
Vagueia solitário

Entre os esquecidos, os caídos
És o rei, o messias
Pois tua natureza maligna
Jamais irá perecer...

domingo, novembro 28, 2010

"A cada dia que vivo,

mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-se do sofrimento, também perde a felicidade." -- Mary Cholmondeley

segunda-feira, agosto 30, 2010

segunda-feira, dezembro 21, 2009


Quimeras


Nem toda vingança oprime
Nem toda ação é razão
E mesmo quem reza
Reza em oração
Do mal não se exime

Mesmo quem tem alma
Ou nobre coração
É capaz de cometer o crime
O amor estilhaçado
Teu corpo sem vida
Jaz quieto, morto, sepultado

Teus olhos

Tão negros

Doces quimeras

Amargos pesadelos

Letra feita especialmente a pedido do amigo Paulinho, da banda santista de rock/metal Abomÿdogs